Momento #03 – O 10.º Andar Onde as Sombras Tinham Método
11 de Março de 2026
O 10.º andar recebia‑me com aquela luz baça que Lisboa às vezes tem, uma claridade que parece filtrada por décadas de histórias mal resolvidas. O apartamento estava arrumado com um rigor quase clínico, como se cada objeto tivesse sido colocado ali para não deixar rasto. O cliente, leitor compulsivo de policiais dos anos 80 e 90, movia‑se pelo espaço com a mesma precisão metódica que se encontra nos velhos romances noir: nada fora do sítio, nada deixado ao acaso. Entre os cactos alinhados na marquise e as estantes impecáveis, havia uma ordem silenciosa que não era bem tranquilizadora; era a ordem de quem observa mais do que mostra.
Enquanto trabalhava, percebi que aquele ambiente tinha algo de familiar, não por já o ter visto, mas por o ter lido. A contenção, o silêncio, a forma como a cidade lá em baixo parecia distante, tudo lembrava os thrillers que ele devorava, histórias onde a verdade se esconde nos detalhes mais banais. E, no entanto, ali não havia nada de ostensivo, nada de suspeito. Apenas uma sensação discreta, quase imperceptível, de que aquele apartamento guardava mais do que livros e cactos. Guardava uma atenção ao mundo que não era inocente.
Ao sair, Lisboa estendia‑se diante de mim, com o Tejo a refletir um fim de tarde que parecia mais antigo do que realmente era. E foi nesse momento que me ocorreu que, às vezes, as histórias que encontramos nos alfarrabistas não começam nos livros, mas sim nos leitores. Na semana seguinte, essa ideia ganhou outra forma, quando dei por mim a mergulhar noutro tipo de arquivo, não de ficção, mas de memória coletiva. Porque o próximo capítulo leva‑nos para um tema onde a realidade sempre superou qualquer thriller: a política portuguesa e as histórias que ainda ecoam desde o 25 de Abril!
Momento #02 – A Colecção que Finalmente Floresceu
4 de Março de 2026
Há leitores que colecionam livros como quem cultiva um jardim: com paciência, cuidado e uma esperança silenciosa de que um dia tudo fará sentido. Já o mês de março de 2025 chegava ao fim quando recebi uma mensagem de um desses leitores. Procurava há anos um livro muito específico de botânica — não era raro, mas era esquivo, como aquelas plantas que só florescem quando querem.
Quando viu que o tinha publicado, respondeu quase de imediato. Disse que aquele título era a peça que faltava para completar a sua coleção, um pequeno tesouro que lhe escapava fazia tempo.
Quando finalmente o recebeu, escreveu‑me outra vez. Contou que abriu o envelope devagar, o plástico‑bolha com parcimónia, como quem abre a porta de uma estufa antiga, e que ao folhear as primeiras páginas sentiu o mesmo entusiasmo de quem vê uma planta rara florescer pela primeira vez.
Histórias assim lembram‑me que os livros não são apenas objetos... são reencontros, memórias, sementes que germinam no tempo certo.
Para a próxima semana, levo‑vos comigo até Lisboa, corria o ano de 2018. Fui ao encontro de uma biblioteca num 10.º andar com vista para o Tejo, onde a marquise era ocupada por centenas de cactos de todas as espécies imagináveis. Entre livros, vasos e espinhos, descobri mais do que títulos para inventariar — trouxe comigo histórias… e uma sensação estranha que só muito mais tarde percebi que não devia ter ignorado. Mas isso fica para o próximo capítulo…
Momento #01 – A Caixa que Voltou a Florir
25 de Fevereiro de 2026
A semana passada, enquanto organizava o armazém, uma caixa esquecida pela velocidade dos dias decidiu revelar‑se. Lá dentro, entre o pó e a surpresa, encontrei vários livros sobre plantas — verdadeiros pequenos jardins em papel. No meio deles, surgiu um título que já não via há anos. Daqueles que nos fazem parar, respirar fundo e imaginar o cheiro da terra molhada. Momentos assim lembram‑me porque gosto tanto deste trabalho: nunca sei que semente de história vai germinar dentro da próxima caixa. Na próxima semana, conto‑vos a história de um cliente que andava há anos à procura de um livro muito específico — a peça que faltava para completar a sua coleção de botânica. Quando finalmente o encontrou, parecia que tinha acabado de ver uma planta rara florescer pela primeira vez. Mas isso fica para o próximo capítulo…

